Saúde & Bem Estar

Síndrome pós-COVID-19: Curados têm sequelas como funções respiratória, cardíaca, dores musculares e perda de massa muscular

Dados do Ministério da Saúde apontam que o Brasil alcançou, nesta segunda-feira (25/5), o total de 153.833 pessoas curadas do coronavírus. O número representa 41% do total de casos confirmados atualmente (374.898). Mas como fica a saúde dessas pessoas?

A dra. Renata Castro – especialista em clínica médica e pós-doutora em cardiologia pela Universidade de Harvard – explica que “mesmo pessoas com quadros leves de COVID-19 podem permanecer com sequelas. Cansaço, falta de ar, dor de cabeça e dores musculares podem permanecer por semanas, mesmo após o vírus ser eliminado no organismo e a pessoa já apresentar sorologia que sugira imunidade. Acredita-se que esses sintomas sejam causados pela intensa reação inflamatória decorrente da infecção pelo COVID-19”.

Para a especialista, há uma preocupação com os efeitos cardíacos, mas Renata observa que dores musculares e perda de massa muscular também têm acometido pessoas curadas de COVID-19, levando ao quadro de síndrome pós-COVID-19:

“O que mais tem preocupado todos nós, médicos, em especial os cardiologistas, são as sequelas cardíacas. Infelizmente, mesmo pessoas sem história prévia de doença cardíaca, é possível apresentar alterações da função cardíaca, provavelmente por agressão direta do vírus ao coração. Ainda não sabemos se tais sequelas são reversíveis, mas sabemos que elas precisam de acompanhamento e reabilitação. Por isso, é importante que as pessoas que tiveram COVID-19 fiquem atentas a sintomas como palpitações, falta de ar, dor no peito e fadiga excessiva”, avalia dra. Renata Castro

  1. Síndrome pós-COVID-19 pode piorar função cardíaca:

Muito tem sido falado sobre o pior desfecho do quadro clínico quando pessoas infectadas pelo COVID-19 apresentam comorbidades como doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, obesidade e câncer. Apesar de o COVID-19 ser um vírus respiratório, nos últimos meses aprendemos que ele pode acometer diversos órgãos e, muitas vezes, não poupa o coração. Todas as agressões conhecidas do COVID-19 ao coração estão descritas em um posicionamento da Sociedade Europeia de Cardiologia, recém-publicado.

O novo Coronavírus pode atacar diretamente o músculo cardíaco, causando uma condição chamada miocardite, que pode deixar sequelas no coração, como insuficiência cardíaca e maior propensão a arritmias. Além disso, a própria inflamação em reposta ao COVID-19 parece poder desestabilizar placas de aterosclerose localizadas nas artérias coronarianas, causando infarto agudo do miocárdio.
Finalmente, o tromboembolismo pulmonar pode resultar em disfunção aguda do ventrículo direito, gerando insuficiência cardíaca direita. Com tantas possíveis sequelas cardíacas pelo COVID-19, nós, cardiologistas, deveremos estar aptos a acompanhar os pacientes sobreviventes, oferecendo-lhes o melhor tratamento e reabilitação.

  1. Síndrome pós-COVID-19 X função respiratória:

A gravidade da infecção pelo COVID-19 é extremamente variável entre os indivíduos. Enquanto muitas pessoas permanecem assintomáticas ou apresentam sintomas leves, outras ficam gravíssimas, podendo se recuperar após vários dias de tratamento intensivo ou morrer.

Apesar de acometer diferentes órgãos, o COVID-19 é um vírus respiratório e um dos principais sintomas desta infecção é a falta de ar. O chamado “infiltrado em vidro fisco”, que vem sendo muito comentado na mídia, indica a ocupação dos alvéolos pulmonares por secreção ou o espessamento dos septos alveolares por inflamação. É natural que com os alvéolos ocupados por secreção a pessoa se queixe de falta de ar. Além disso, diversos estudos vêm comprovando que o COVID-19 gera trombose nos vasos pulmonares.

Entretanto, por que a falta de ar pode permanecer mesmo após a infecção estar tratada? Ainda conhecemos pouco sobre as sequelas que o COVID-19 causa nos pulmões. Apesar de não existirem estudos com grandes séries de casos em que a função pulmonar dos sobreviventes tenha sido avaliada, acredita-se que cerca de 30% dos pacientes permaneçam com queixa de falta de ar ou fadiga. Um estudo (DOI: 10.1016/j.ctcp.2020.101166) realizado com 72 idosos que sobreviveram ao COVID-19 revelou melhora da função respiratória e da qualidade de vida daqueles que realizaram um programa de reabilitação pulmonar por seis semanas.

  1. Síndrome pós-COVID-19 X dores musculares e perda de massa muscular:

Dores musculares, principalmente nas costas e panturrilhas, são frequentes em pacientes infectados pelo COVID-19. A intensidade destas dores pode variar de leve até muito forte, assemelhando-se àquela da dengue em cerca de 20% dos casos. Tive dengue e agora, com o COVID-19, senti dores exatamente iguais.

Em casos mais raros, pode ocorrer miosite: lesão muscular, com liberação de substâncias que podem afetar a função renal, chamada rabdomiólise.
Alguns pacientes relatam que as dores musculares permanecem por semanas, impedindo o retorno à prática de atividade física. A perda de massa muscular acomete praticamente todas as pessoas infectadas pelo COVID-19. Além da inatividade física, necessária para recuperação durante o quadro de infecção, a reação inflamatória ao vírus e a agressão direta do vírus ao músculo podem contribuir para a perda de massa muscular. Estratégias nutricionais e de treinamento físico individualizadas são necessárias para que o indivíduo possa recuperar a massa muscular e sua funcionalidade.